Medieval Spawn and Witchblade (2018) – Resenha

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Quando o Spawn Medieval foi apresentado na edição 9 da revista Spawn, pela primeira vez os leitores viram que a maldição não era exclusiva de Al Simmons e que outras pessoas em épocas diferentes tinham recebido o fardo de se tornar um hellspawn. Em pouco tempo o personagem tornou-se um dos mais queridos, ganhou uma história em duas partes nas edições 14-15 (correspondente às edições 13 e 14 brasileiras) e teve várias actions figures. Além disto, ele protagonizou um encontro com a portadora da manopla Witchblade da época em uma minissérie em três partes que foi publicado no Brasil pela Pandora Books entre outubro e dezembro de 2001 com o nome Witchblade – Era das Trevas, já que o nome original, Medieval Spawn / Witchblade, não poderia ser usado já que a Abril era detentora da marca na época. Os dois voltariam a se encontrar brevemente na minissérie Altered Image, inédita no Brasil.

Porém, algum tempo depois, o escritor Neil Gaiman entrou com um pedido de direitos autorais contra Todd McFarlane pela co-criação, não só do Spawn Medieval, mas também do conde Cogliostro e da Ângela. O resultado foi a derrota de McFarlane nos tribunais e a perda total dos personagens. Sem saída, Todd teve que ceder não só direitos mas também bolar alguma coisa para dar um “sumiço” neles. Assim, Ângela foi brutalmente assassinada na edição 100 (porém foi “revivida” pela Marvel e hoje faz parte das histórias dos Guardiões da Galáxia) e Cogliostro ficou enclausurado em uma torre após se tornar rei do Oitavo Círculo, conforme visto na edição 120. Após alguns anos, foi feito um acordo entre os dois artistas e McFarlane poderia voltar reimprimir a edição 9, além de utilizar Cogliostro nas histórias.

Mas o Spawn Medieval?

A princípio quando saiu a minissérie Medieval Spawn and Witchblade (Image, 2018) imaginávamos se tratar do conhecido Sir John of York, porém ao lermos as primeiras páginas fica claro que não é o mesmo personagem apresentado na edição 9, nem tampouco Lorde Covenant, personagem principal da série Spawn – The Dark Ages, mas sim de um NOVO Spawn Medieval. Segundo os historiadores, a Idade Média é dividida em dois períodos: a Alta Idade Média, que compreende entre os séculos V e IX, e a Baixa Idade Média que vai do século X ao século XV, que é o período das Cruzadas e época em que o primeiro Spawn Medieval viveu. Como a regra diz que um hellspawn surge a cada 100 anos, Todd McFarlane aproveitou um período de 1.000 anos para criar sua própria versão do Spawn Medieval sem afetar os direitos de Neil Gaiman.

Escrita por Brian Holguin e Brian Haberlin (dupla que já trabalhou em vários números da série mensal), a trama gira em torno de uma pequena aldeia que é ameaçada por vários seres sobrenaturais e seus cidadãos, compostos principalmente por fazendeiros, crianças e mulheres, precisam se erguer para enfrentar tais criaturas, até que surge um cavaleiro vestindo uma armadura e os defende. Este cavaleiro é reconhecido com o lendário rei Valon, que desapareceu de suas terras em jurou um dia regressar, por um jovem chamado Owen, que acaba se tornado o seu escudeiro e passa a acompanhá-lo para enfrentar a ameça, que vem de uma rainha negra que tem o objetivo de espalhar a escuridão sobre a terra e assim dominá-la. Em outra parte, um mago e explorador de artefatos chamado Sea Hawk tem visões de tal ameaça e da existência da manopla Witchblade que pode enfrentá-la, e para isto contará com a ajuda da jovem Starling para encontrá-la.

A história se passa em um período indeterminado, já que não há a certeza de ser anterior ou posterior ao primeiro encontro entre o Spawn Medieval e Witchblade. Também há dúvidas de que a história se passa na Inglaterra ou mesmo em um país real já que não há menções ao Cristianismo, uma característica muito forte nesta época ou mesmo menção a Deus pois em vários momentos os personagens agradecem “aos deuses”. Por se tratar de uma terra fictícia ao estilo de Game of Thrones, a história perde um pouco já que não há referências palpáveis no que se basear pois em nenhum momento é dito onde a trama se passa, se aproximando desta forma do título Spawn: Godslayer, o qual era ambientado um outro mundo. Outro ponto que soou estranho foi a própria Witchblade. Quem leu as aventuras de Sara Pezzini e de suas antecessoras sabe que, quando utilizavam a manopla, ela cria uma espécie de armadura ao redor do corpo da pessoa (embora seja mais para mostrar a sensualidade da usuária). Já a Starling, atual detentora da manopla, limita-se apenas a utilizá-la na mão, se aproximando assim da versão da série de TV que passou há alguns anos no SBT. A diferença é que a Starling, pelo menos, consegue lançar rajadas de energia, mas mesmo assim ela acaba sendo uma personagem sem graça e que não acrescenta muito à história, diferente da sua antecessora Katrina, que era muito mais interessante. Sobre o atual Spawn Medieval, ele segue a linha clássica do personagem com a mente nublada após seu surgimento e acaba pendendo pelo lado heróico, assim como Al Simmons. Isto faz com que haja uma dualidade em sua alma sobre quem ele realmente é. Por fim, os personagens de apoio estão ali apenas para conduzir a história, com destaque para Scourge, um ser criado como se fosse um hellspawn e que acaba sendo o rival do Spawn Medieval. A motivação da tal Rainha Negra, que é a total aniquilação da Terra, é infundada já que qual é a graça de governá-la se não haverá ninguém para servir?

Porém, o lado positivo da minissérie, que foi lançada em quatro partes e depois encadernada em um único volume, fica para os belos desenhos de Brian Haberlin e cores de Geirrod VanDyke. A arte de Haberlin é muito bem detalhada para ambientes e roupas, com detalhe para os minúsculos elos da cota de malha usada pelos cavaleiros e no próprio Spawn Medieval. Junto com estilo de “arte suja” cria um ambiente sombrio, ideal para o tipo de história que se pretendia criar. O único problema é no desenho de rostos humanos, os quais não possuem a mesma beleza de detalhes que deveria ter como no resto da história. Já as cores cumpriram o seu papel de manter a sobriedade da Idade Média, sem muitas cores berrantes. O próprio vermelho da capa do Spawn Medieval não é tão flamejante, se aproximando mais para um vermelho escuro.

A arte de Brian Harbelin é o maior atrativo do crossover

Esta minissérie possui como bônus algo inédito nas revistas do Spawn: ao baixar um aplicativo para celular nós experimentamos folhear a revista com realidade aumentada. Isto significa que, ao apontar a câmera do celular para qualquer página podemos visualizar, em 3D flutuante, o processo de produção, desde o script original, os primeiros rascunhos, o desenho com arte-final e a página pronta, tudo “folheando” através da tela do celular. A capa do encadernado também possui um atrativo: ela se transformar em um quebra-cabeça flutuante e assim coloque-se as peças no lugar para montar a imagem. E quanto mais você aproxima a câmera do desenho, mas detalhes são mostrados. Algo realmente impressionante! Também é possível tirar selfies usando os elmos do Spawn Medieval e do Scourge,  depois enviar para os amigos. O problema é que este recurso funciona muito bem com as revistas separadas pois pode-se abri-las em uma mesa e começar a brincadeira. Já o encadernado, por ser de capa-cartão e não possui grampos, a coisa fica um pouco ruim pois é necessário abrir à força a revista com uma mão enquanto usa a outra para apontar o celular, o que causa uma experiência não muito satisfatória.A edição encadernada ainda conta com uma galeria de capas.

Em suma o encadernado, que pode ser comprado na Amazon Brasil através deste link, vale para quem é fã do Spawn e quer tê-la para a preencher sua coleção, mas a falta de uma conectividade com Sir John e Katrina (protagonistas do primeiro crossover) acaba desagradando quem esperava vê-los mais uma vez. Vale também pela bela arte suja e detalhada, que acaba sendo o ponto alto da edição. O seu desfecho, que sugere uma continuidade, dá esperanças que possamos encontrá-los mais uma vez, embora a torcida fica para que seja em melhores condições.

Medieval Spawn and Witchblade – Edição Encadernada

Data de lançamento – Setembro/2018

Brian Holguin e Brian Haberlin – História

Brian Haberlin – Arte

Geirrod VanDyke – Cores

Letras – Francis Takenaga

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