Neste artigo vamos mostrar algumas traduções e adaptações feitas na revista Spawn pelas editoras Abril e Pixel que criaram um pouco de estranheza quando saíram.

Crise Nas Infinitas Guerras Secretas de Adaptações e Modificações

Quando uma revista em quadrinhos de outro país é publicada no Brasil é normal que alguns termos tenham que ser adaptados à nossa realidade, principalmente quando se tratam de gírias pois algumas, quando traduzidas fielmente, perdem todo o sentido ou podem soar estranhas para os brasileiros.

Um destes termos é a famosa provocação americana kiss my ass, que traduzida ao pé da letra seria beije minha bunda. Não seria estranho se nós xingarmos assim? Portanto o equivalente no Brasil seria algo como vá para o inferno ou vá se ferrar.

Neste quadrinho a tradução poderia ser:
“As leis da física podem ir para o inferno.”

Em alguns casos adaptações de termos e nomes são necessárias pois a fonética de algumas palavras poderia gerar trocadilhos, cacofonia, ambiguidade e até mesmo criação de termos chulos no Brasil.

Alguns exemplos vêm da franquia Star Wars onde alguns personagens tiveram os nomes trocados como o caso do Conde Dookan, que originalmente se chamava Conde Dooku, e o jedi Sifo-Dyas (???) que no Brasil foi alterado para Zaifo-Vias. Dizem que a editora Ebal, ao publicar as histórias do Batman decidiu batizar o Joker como Coringa (com “o”) para evitar cacofonia – união de dois fonemas, formando um som desagradável – caso ele fosse chamado de Curinga (“Isto só pode ser um plano do Curinga pra matar o Bátima!”)

O Conde Dookan é bem ameaçador, mas se fosse chamado de Dooku qualquer um no Brasil iria cair na gargalhada!

Em um caso recente a Disney teve que modificar o título de uma das suas animações criadas pelo estúdio Pixel para evitar problemas sonoros. A animação em questão é Viva – A Vida é uma Festa, cujo nome original é simplesmente Coco. O nome é uma referência à personagem Mamãe Coco (diminutivo de Socorro), que é bisavó de Miguel, protagonista do filme. Como “Coco” poderia ser pronunciado como Cocô, a Disney decidiu trocar o nome da animação e também da personagem, que passou a se chamar Lupita.

Até a Disney teve problemas como nosso idioma, a ponto de trocar nome da animação Coco para “Viva – A Vida é uma Festa”!

Já nos quadrinhos tivemos muitos casos de traduções que, em uma tentativa de aproximar os personagens ao público brasileiro, tiveram nomes trocados ou adaptados para uma fonética próxima ao português.

Alguns destes casos são o do herói da DC Martian Manhunter, que atualmente é chamado de Caçador de Marte, porém nos anos 80 chamava-se Ajax (??), Speedy virou Ricardito por aqui (que raio de nome é este???), o primeiro Flash Jay Garrick se tornou Joel Ciclone (afff).

Quem também sofreu por aqui no início foi o cabeça de teia Homem-Aranha, cujo personagens se chamavam Pedro Prado (Peter Parker), Tia Maria (Tia May), João Jonas Jaime (John Jonah Jameson) e Maria Joana (Mary Jane). Até mesmo o primeiro dos super-heróis Superman (que até 1999 era chamado de Super-Homem), e seu eterno amor Lois Laine, foram “rebatizados” no Brasil, chamando-se Eduardo Kent e Miriam Lane.

Nos anos 60 tivemos a primeira animação do amigão da vizinhança, o Homem-Aranha, cuja identidade secreta era Pedro Prado (tente repetir 3 vezes!)

Porém é impossível não pensar em adaptações e traduções sem nos lembrarmos da saudosa Editora Abril Jovem.

Conhecida na época por mutilar, adaptar e traduzir de forma duvidosa as HQs de super-heróis, a editora fez história durante o período em que publicava os títulos da Marvel e DC, e por causa do formato diferenciado das revistas (os famosos “formatinhos”) muitos quadros eram remanejados, personagens eram apagados e balões eram reescritos, criando uma cronologia própria dentro da editora, já que as histórias estavam com muito atraso em relação aos EUA.

Um destes casos de modificações nos desenhos, balões das história e cronologia, foi quando a minissérie Guerras Secretas foi publicada nos anos 80. Uma das personagens que participava ativamente da história era a Capitã Marvel (alter ego de Mônica Rambeau), porém como ela ainda não havia aparecido no Brasil ela foi completamente apagada da história, cujas aparições foram cortadas ou substituídas por outros personagens. Outros casos foram Tempestade com seu visual moicano e Vampira.

Um dos responsáveis por realizar traduções e adaptações para a editora Abril era João Paulo Martins, também conhecido pelo nome icônico Jotapê. Crítico ferrenho do formato americano e da manutenção de nomes originais em inglês, Jotapê sempre foi uma figura controversa, principalmente quando se autopromovia na história, colocando seu nome em personagens, placas e cartazes.

Jotapê Martins, que já teve uma coluna na extinta revista Wizard da editora Globo, defendia os cortes e o “formatinho”

Em Spawn também tivemos vários problemas de tradução e adaptação, que era de responsabilidade, inicialmente, do Estúdio Nankin. Embora nenhuma das revistas tenha havido corte de história, nós do Spawn Brasil realizamos um levantamento de alterações e omissões de informações realizadas pela Editora Abril (e Pixel) que trará mais informações e esclarecimento aos fãs.

“Cadê meu aumento, chefe?”

Em Spawn #2, durante as investigações sobre o “Cirurgião Cardíaco”, fica subtendido que o detetive Sam Burke seria um chefe enquanto Twitch Williams seria um subalterno dele. Isto fica claro quando Twitch pergunta ao Sam sobre o aumento do salário, o qual leva um “cala a boca”.

Na época esta cena passou normalmente, mas a coisa começou a incomodar nos números seguintes quando mostrava que Sam não era chefe de Twitch e sim parceiros. Por que então Twitch pediu um aumento de salário?

Atualmente, com acesso às versões originais americanas, conseguimos achar a resposta: a Editora Abril, em sua surpreendente sabedoria, decidiu “adaptar” a história sem ler nos números seguintes que ambos estavam no mesmo nível e não em hierarquia diferentes. No original, Twitch pergunta ao Sam sobre como está o ombro de Gooden atualmente, o qual leva um fora. Twitch chamava Sam de “Senhor” apenas de forma respeitosa, assim como Marcie chama Patty Pimentinha em Peanuts (personagens da turma do Snoopy).

Dwight Gooden foi um jogador profissional da World Series e jogou pelo New York Yankees e New York Mets. Em 1991 Gooden teve vários problemas com o seu ombro, levando-o a fazer várias cirurgias, o que comprometeu o campeonato no ano em que Spawn foi lançado, e como Todd McFarlane é muito fã de beisebol, ele fez esta referência na revista.

Dwight Gooden, ex-jogador do New York Mets

Como podem ver, a Abril simplesmente fazia as coisas do jeito que ela achava melhor, mas como dizem, “a emenda ficou pior que o soneto”, e ao invés de contribuir um pouco de cultura conosco (no caso, beisebol) fez uma adaptação que mostrou ser “nada a ver”.

Quando a Pixel Media relançou a edição no encadernado Origens pelo menos adaptou para algo um pouco mais próximo do contexto, trocando o ombro de Gooden para o joelho de Ronaldinho (embora fosse estranho ver americanos falarem de futebol, mas tudo bem).

A Editora Abril foi infeliz nesta adaptação pois Twitch não é empregado de Sam para pedir aumento!
Quando Spawn #2 foi republicado pela Pixel Media o contexto foi alterado deixando mais próximo do original, porém ficou estranho o Twitch falar sobre futebol!

Você grita, eu grito…

Billy Kincaid foi apresentado em Spawn #5 e muitos ficaram chocados com sua crueldade. Uma das características que ficaram marcadas foi sua rima, que até mesmo foi reproduzida no desenho da HBO:

“Você grita e eu grito, por sorvete no palito.”

Até aí nada demais, a não ser pelo detalhe de que se pegarmos a frase original e vermos que ela é assim:

“You scream, I scream. We all scream for ice cream.”

Billy Kincaid recitando pela primeira vez a famosa rima

Na tradução, logicamente, perde-se a rima (Você grita, eu grito. Todos nós gritamos por sorvete), então a Editora Abril fez uma adaptação para criar a rima. Ponto para eles!

No original a brincadeira da rima está com a pronúncia de “I scream” (Eu grito) com “Ice cream” (sorvete), ambos possuem o mesmo som – parecido com “ái iscrim” (I scream) e “áice crim” (Ice cream). Em português, para se aproximar da brincadeira rítmica, foi usar “grito” com “palito”.

Mas há um detalhe importante: a rima faz parte da letra de uma música popular americana de 1927 composta por Howard Johnson, Billy MollRobert A. King e que foi gravada por diversos artistas, cuja versão mais famosa é da banda Waring’s Pennsylvanians. A música original você pode ouvir abaixo:

Portanto o erro não foi a tradução, e sim o fato da Editora Abril não ter se preocupado em fazer uma pesquisa para informar aos leitores sobre a origem da música de Billy Kincaid, que é uma curiosidade bem interessante.

Parabéns da idade da pedra

Em Spawn #12 Al está festejando com seus amigos enquanto eles cantam “Parabéns pra você”. A estranheza fica pelo fato mendigos cantarem “é pique, é pique!”, algo que é inexistente na versão da música dos Estados Unidos.

Porém, ao lermos a edição original americana, vemos que no lugar da música de “parabéns à você”, todos estão cantando a música-tema dos Flintstones, com direito ao Al gritar “Wilma” no final!

Isto inclusive é o início de uma discussão entre eles, com menções ao dinossauro de estimação Dino (que também ficou de fora na edição brasileira), ao Jurassic Park e termina com o “Peido Jurássico”.

Fica aqui a pergunta: qual foi o motivo de terem trocado a música original, já que fazia mais sentido para a história? Mesmo para quem não lê inglês, a simples menção dos Flintstones fazia qualquer um entender do que se tratava. Sem contar que a própria editora já havia publicado muitas histórias em quadrinhos desses personagens da Hanna-Barbera.

Cena original da festa em Spawn #12, com direito aos “direitos reservados aos respectivos donos” na nota de rodapé
Cena adaptada pela Editora Abril. Repare que até o recordatório de “direitos autorais” aos Flintstones foi apagado

Santo cadarço!

Em Spawn #21 Al aparece com o rosto sendo costurado por Bobby com um cadarço. Ao ser perguntado sobre como ele ficou daquele jeito, Spawn responde “topei com um cara de preto”.

OK, a edição foi publicada após o primeiro crossover entre Spawn e Batman (McFarlane/Miller), onde no final o Cavaleiro das Trevas lança um batarangue no rosto de Spawn. A Editora Abril até fez uma menção sobre isto no recordatório da mesma página.

O problema é que todos sabemos que crossovers entre personagens de editoras diferentes não interfere na cronologia e nem podem ser considerados canônicos. Portanto, ao vermos a edição original, Todd McFarlane não faz referência ao encontro dos dois personagens e sim à aventura que Spawn teve com Houdini na edição 20, ou seja, a editora Abril alterou o recordatório para promover o crossover!

A Editora Abril alterou o recordatório para promover o especial Spawn/Batman que sairia em dezembro daquele ano.
O recordatório original faz referência ao encontro com Houdini entre as edições 19 e 20 – que na época ainda não havia sido lançadas, mesmo que fosse a edição 21, as 19 e 20 foram lançadas depois – entenda isso melhor neste outro artigo

Leia nossa matéria especial sobre esta confusão!

“Eu já te vi antes?”

Os dois crossovers entre Batman e Spawn foram publicados separadamente pelas editoras Image e DC e as duas NÃO ERAM CONECTADAS!!! Pois é, soldados! As duas narram como seria o encontro de Batman e Spawn pela primeira vez sob a visão da editora responsável! Pode parecer estranho, mas é isto mesmo: nas duas histórias Al e Bruce não se conhecem e acontece o clássico clichê do herói que encontra o outro herói desconhecido, lutam pensando que é o vilão, se apresentam e se juntam contra uma ameaça.

Porém a Abril, malandramente, alterou diversos diálogos durante a luta dos dois heróis quando lançou o segundo crossover (com roteiros de Chuck Dixon, Alan Grant e Doug Moench e desenho mais arte-final de Klaus Janson) e assim fez parecer que fosse uma revanche. A ideia pode parecer boa, mas há um detalhe que a Abril deixou passar e somente os mais atentos perceberam: SPAWN APARECE SEM O CADARÇO NO ROSTO, o que não seria uma suposta CONSEQÛENCIA do fatídico primeiro crossover!

Na época, como as duas edições foram escritas simultaneamente e por editoras diferentes, ninguém sabia o que estava acontecendo na revista da outra. Olhando por este ponto de vista vemos que a Abril alterou a história mas não olhou as “letras miúdas”.

Abaixo segue a comparação de um fragmento da história. Do lado esquerdo está o diálogo adaptado da Abril; do lado direito o original americano. No diálogo Batman diz que Spawn fala como se eles já tivessem se encontrado antes, e Spawn responde dizendo que já encontrou sua espécie antes, que têm mandado legiões delas, achando que Batman fosse um demônio.

Do lado esquerdo a Abril alterou o diálogo, indicando que fosse uma continuação do primeiro encontro entre Batman e Spawn
Na época da publicação desta história Spawn ainda não tinha a cicatriz no rosto. Desta forma, como ele poderia ter encontrado novamente com o Batman se ele foi o suposto responsável?

“Oi, você por aqui?”

Em Spawn #52, enquanto Al viaja pelos Círculos do Inferno, durante sua estadia chega ao quinto nível e vemos ele se encontrar com alguém inesperado: Savage Dragon! Então uma dúvida bateu na mente de todos: ele morreu? Como ele foi parar no inferno????

A revista The Savage Dragon foi lançada quase na mesma época que Spawn e continua saindo até hoje (ultrapassando 250 edições em 2020), porém foi interrompida algumas vezes. No Brasil ela fez relativo sucesso, mas teve vida curta já que a nossa querida Editora Abril, inexplicavelmente, interrompeu sua publicação no número 16, deixando muito da história em aberto. A HQM tentou relançar o Dragon com uma edição especial contando a origem do personagem, mas foi só. A Pandora Books também lançou uma minissérie de duas partes com o crossover de Hellboy. Já a Editora Mythos lançou o encadernado Unidos (com participação de vários heróis da Image, inclusive Spawn – mas não se confundir com a inédita saga “Image United”). Desde então nunca mais tivemos nada sobre Savage Dragon no Brasil.

Surpreso com a situação de Dragon no Inferno constatamos que, mais uma vez, a Abril não explicou nada ao leitor e muita gente ficou perdida sobre o motivo do Dragon de Chicago ter morrido. Ele até conta durante a história que teve um encontro com a personagem Capeta, mas tudo muito vago e, logicamente, esta edição não havia sido publicada no Brasil. Para completar, a Abril não deixou nem um posfácio contando o resumo da tal história da morte do Dragon e nenhuma nota de rodapé.

A resposta, mais uma vez, começa com a versão americana de Spawn #52. Na edição original, durante o relato de Dragon, havia um recordatório que foi APAGADO pela Abril!!! Nele, havia a referência para a tal história, que havia acontecido na edição 29 de Savage Dragon, onde o policial realmente é massacrado pela vilã Capeta (The Fiend, no original) e enviado para o Inferno.

No final desta história Spawn e Dragon são transportados através de um vórtice sob o olhar de Malebólgia, e na edição seguinte, no número 53, nada é mencionado sobre o que aconteceu com Dragon. Isto porque o desfecho aconteceu na edição 30 e 31 de Savage Dragon. Ambos viajam para outra parte do Inferno e encontram a vilã Capeta, que queria que Dragon sofresse após a morte, mas para ele está sendo a maior diversão! Quase no fim da história Spawn parte para se encontrar com Malebólgia enquanto Dragon encara sua inimiga e também o Overlord, o senhor do Círculo Vicioso! Dragon consegue voltar para a Terra na edição 32, depois de encontrar Deus e Satã!!!

Dragon conta o que aconteceu com ele, mas a Abril não colocou nenhum resumo ou referência sobre a edição #29 de The Savage Dragon

Rock “made in Brazil”

Em Spawn #121 houve uma tentativa de fazer com que, por um momento, a gente imaginasse que a história se passasse no Brasil, ou que nossa cultura tivesse sido exportada para os Estados Unidos.

Quase no final da edição tivemos a surpresa de ver Cyan pré-adolescente, e o maior espanto foi vê-la cantando Se For Já Era, uma das músicas mais famosas do Charlie Brown Jr!!!

Estava na cara que a Abril tinha feito “mais uma das suas” em trocar o texto original por algo brasileiro. Em uma Post Mortem posterior um leitor até acreditou naquele absurdo e perguntou ao editor como Todd McFarlane conhecia aquela música… O próprio editor disse que tinha trocado a música original, que era Sk8er Boy de Avril Lavigne, e que havia feito isto para colocar uma música mais próxima da nossa realidade já que as duas eram muito populares entre os adolescentes skatistas daquela época. Porém, é quase impossível qualquer um não conhecesse uma das músicas mais famosas da Avril Lavigne.

Abaixo segue a versão original, com Cyan cantando Sk8er Boy e na parte inferior a mesma cena adapta pela Editora Abril com ela cantando Se For Já Era.

Cyan gosta tanto de rock que até curte Charlie Brown Jr!

“Cacá e Bobó morreram???”

Quando Spawn #26 foi lançada muitos ficaram chocados com a cena de Bobby morto logo no começo da história e Al disse que Capela tinha invadido os becos e matado seu amigo, se suicidando logo em seguida.

O choque não foi com a morte de Bobby (que reviveu alguns quadros depois), mas sim pelo fato disto não ter sido mostrado em lugar nenhum!

Na época foi sugerido que poderia ter acontecido alguma coisa, como feito com a edição #10 que não tinha sido publicada – entenda os motivos aqui – mas a ordem dos números ainda estava seguindo correta. Então, quando e onde foi mostrada a morte de Capela?

A resposta, como sempre, estava na edição original americana. A Editora Abril trocou o recordatório original! No lugar de “O assassino de Al Simmons” o original dizia “Youngblood issues 8-10 – Tom”. Neste arco Capela, por vingança pela última luta contra Spawn, invade os becos e atira na cabeça de Bobby. Após uma discussão com Al, ele acaba se suicidando.

A mesma cena publicada no Brasil e nos Estados Unidos. A Abril alterou uma informação que era muito importante para os leitores

A publicação de Youngblood foi uma verdadeira bagunça no Brasil orquestrada pela Editora Abril. A série 1 é de 1992 e não foi publicada por aqui e foi justamente o último número que mostrava a morte de Capela. A que chegou na mão dos leitores foi a série 2, de 1995, que são eventos posteriores. Além disso, a versão brasileira era o dobro de páginas pois, além de conter a série 2, também vinha a série paralela Youngblood: Strikefile.

Ou seja, a Abril pecou em duas frentes: além de não ter publicado o material completo de Youngblood nem mesmo deixou uma nota informando aos leitores sobre o que aconteceu com Bobby e Capela…

Mesmo que no Brasil não fosse ser publicada estas edições, o que custava informar ao leitor? Isso poderia ser resolvido com um trabalho mais apurado do editor de quadrinhos.

A edição #10 de Youngblood foi ignorada pela Editora Abril
Momento em que Capela se suicida!!!

O sigilo da fivela

Em Spawn #74, após Al desaparecer na luta contra o ser de lixo Entulho, Botas e Cogliostro encontram uma espécie de medalhão com o símbolo do hellspawn (na qual a Abril traduzia este termo simplesmente como Spawn muitas vezes), indicando que ele poderia ter sido eliminado (assim como foi visto no confronto entre Ângela e Spawn Medieval na edição #9).

Quando a Editora Abril publicou esta edição, na tradução, Bobby diz que encontrou “a fivela do cinturão do Spawn”.

Coitado do Spawn! Agora suas calças vão ficar caindo sem a fivela do cinturão

Fivela? Cinturão? Como assim????

Qualquer fã de Spawn sabe que seu uniforme é composto por uma peça única (é um simbionte chamado K7-Leetha, saiba mais aqui), como se fosse um colante, e a única peça que aparece no ventre é a caveira central que segura suas correntes. Então, de onde então veio esta peça?

Novamente a resposta veio na edição original americana, onde Botas diz que encontrou “the sigil” ou “o sigilo”.

No original Botas diz que encontrou “o sigilo do hellspawn”

Ao pesquisarmos sobre do que se trata “o sigilo” descobrimos que se trata de um arquétipo mágico da magia do caos. O sigilo pode ser próprio ou uma combinação de símbolos existentes, com a intenção de ativar o subconsciente com um desejo, que se manifestará ou se realizará. Para ativar o subconsciente, o mago transmuta seu desejo em um desenho ou símbolo… se tornando um sigilo mágico.

Os 13 sigilos elementais
Uma curiosidade: a página acima é da sessão de cartas do quadrinho da DC/Vertigo/Black Label chamado “Os Invisíveis”, escrito por Grant Morrison (que escreveu três histórias de Spawn #16, #17 e #18).
É um dos exemplos mais interessantes de sigilo sendo colocado em prática. Nesta página o escritor Grant Morrison pede para que as pessoas o ajudem com as vendas dos quadrinhos, mentalizando este sigilo mágico e enviando a energia canalizada para que a revista não fosse cancelada.
Mágica ou não, a revista acabou não sendo cancelada… Acredite, se quiser!

Mais uma vez a Editora Abril privou os seus leitores de informações culturais em “benefício próprio” de tentar uma saída fácil, mas pouco verossímil. O mais interessante disto é que na edição seguinte a tradução foi alterada, onde Spawn chama o seu símbolo de “selo”, que é mais condizente com o original.

Desta vez a Abril acertou na tradução. O que ocorreu foi que na edição #74 os tradutores foram Mario Luiz C. Barroso com Renata Osmann e na edição seguinte #75 foi Leandro Luigi Del Manto.

Vamos comprar bonequinhos?

Em Spawn #75, quando Sam visita Twitch em seu apartamento, há um pequeno bilhete preso ao lado do seu monitor escrito “Comprar os bonequinhos do Kiss”.

Bilhete provavelmente escrito por um dos filhos do Twitch para comprar os “bonequinhos” da banda Kiss, na qual a McFarlane Toys havia produzido

O caso é que “bonequinho” é termo bem infantilizado entre colecionadores, que normalmente chamam de “miniaturas”, “figuras de ação” ou o original “action figures“.

Ao buscarmos a mesma informação na edição original vimos que a Editora Abril tinha alterado mais uma vez o seu conteúdo! Na edição americana não há menção à banda de Gene Simmons e sim ao personagem criado por Greg Capullo: The Creech!

No original um dos filhos de Twitch pede para o pai procurar pela action figure do Creech

Até podemos entender que a Abril trocou o contexto já que o Creech não é um personagem conhecido no Brasil, pois nenhuma edição foi publicada, e motivou a Abril trocar para Kiss pelo fato de que no ano anterior ela tinha publicado a minissérie Psycho Circus, para promover a turnê que a banda fez no Brasil na época.

The Creech, a criação máxima de Greg Capullo,
que já virou action figure pela McFarlane Toys
Primeiro número da minissérie Kiss: Psycho Circus,
publicada pela Abril em 1999,
que fazia parte de uma série que
infelizmente não ficou completa no Brasil

Edição 10? O que é isto?

Era comum a Abril também esconder o jogo em se tratando de algumas informações extras, como os eventos ocorridos na edição #10 que não foi publicado no Brasil.

Leia nossa matéria especial, sobre os verdadeiros motivos, aqui!

Como forma de se evadir do assunto, os editores davam desculpas pouco convincentes para os leitores através da seção de cartas Post Mortem, como neste caso abaixo:

O editor até tentou dissimular sobre não haver explicações sobre o que aconteceu após a edição #9, mas a resposta veio assim que os fãs souberam da existência da edição #10 (saiba mais aqui)

Tira capa, bota capa!

Para finalizar, uma das “táticas” mais comuns também era a troca de capas das edições, substituindo a arte original por algum quadro interno da edição. Porém, como foram muitas modificações, você pode ler a nossa matéria completa sobre este assunto clicando aqui.


E você aí, soldado leitor? Conhece mais algum caso onde a Editora Abril ou Pixel Media tenha alterado algum conteúdo drasticamente? Deixe um comentário abaixo ou discuta em nosso grupo no Facebook!


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